Análise do adversário no ténis — notas para o reencontro

Neste artigo
Perdeu em maio com um adversário do clube e volta a defrontá-lo na próxima ronda do torneio interno. Da primeira vez ficou a ideia de que «serve bem e não falha de esquerda». Para preparar o reencontro, isso vale pouco.
Uma nota útil diz de que lado serviu e para onde, o que a sua resposta produziu, como se desenrolou a troca de bolas a seguir e como acabou o ponto, e guarda tudo isso à parte da interpretação feita na altura. O método cabe em quatro passos:
- registar o contexto, a troca de serviço e resposta, o padrão do ponto e o resultado, separados do que se pensou sobre eles;
- reler antes do reencontro;
- testar um ou dois ajustes;
- corrigir a nota quando o encontro seguinte a contrariar.
A ficha de cinco campos que se segue reúne o que treinadores e jogadores foram aprendendo no court. Nenhum estudo a testou, e nenhum dos estudos citados neste artigo mostra que manter um caderno faça ganhar mais encontros de ténis.
O que a investigação dá é outra coisa — mostra o que varia de encontro para encontro e o que se sabe sobre a reflexão no desporto. É daí que parte a proposta, na linha do argumento geral a favor de manter um caderno de adversários.
«Serve bem» não é uma nota
O serviço é a pancada mais fácil de resumir num adjetivo e a que mais perde com isso. Machar Reid, do Game Insight Group da Tennis Australia, e colegas publicaram no Journal of Sports Sciences, em 2016, uma análise de dados de seguimento da bola e dos jogadores recolhidos no Open da Austrália entre 2012 e 2014, em piso rápido, com 102 jogadores e 95 jogadoras. As maiores diferenças entre homens e mulheres estavam nas estatísticas de serviço:
- velocidade;
- ases;
- serviços não devolvidos;
- proporção de pontos ganhos ao serviço.
Havia ainda diferenças no ponto do court onde a resposta era batida e na altura da bola nesse momento. É uma comparação entre sexos numa única prova, não um método para observar adversários, e não diz nada sobre cadernos. Daqui tiramos, por nossa conta, uma regra de escrita — o serviço e a resposta pedem uma nota com duas metades, o que o serviço fez e o que a resposta produziu.
Quando é o adversário a servir, registe:
- se foi primeiro ou segundo serviço;
- de que lado do court;
- em que direção (aberto, ao T, ao corpo);
- com que efeito, se o distinguiu;
- o que a sua resposta deu, fosse bola curta, troca neutra, erro ou ponto ganho.
Para o seu próprio serviço, inverta o ponto de vista e anote quais é que o adversário atacou, quais devolveu apenas bloqueados e se isso mudou com o marcador.
Uma ficha que cabe numa página
No fim de cada encontro, a nossa recomendação é escrever o que resultou, o que não resultou e o que fazer para a próxima. Achamos que, em qualquer desporto de raquete ou de combate, são estas as três coisas mais importantes a anotar. Os dois primeiros campos, o contexto e o adversário, servem de pano de fundo aos outros três. É uma ficha prática, para jogadores de clube, e não um instrumento validado. Frases curtas servem; onde não souber, deixe a lacuna assinalada em vez de a preencher com uma suposição.
- Contexto. Adversário, data, formato (à melhor de três sets ou o que tiver sido combinado), piso, court coberto ou exterior, vento e sol, resultado. Em cada observação concreta, a situação no marcador em que aconteceu. Lateralidade, e se a esquerda é a uma ou a duas mãos. E a origem da nota, seja a memória, um vídeo ou alguém que assistiu de fora.
- O adversário. O primeiro e o segundo serviço de cada lado do court, para onde foram e o que a resposta deu; no sentido inverso, o que fez com os serviços que recebeu de si. Depois da resposta, as trocas cruzadas e o momento em que mudou de direção; o que fez com uma bola curta; se subiu à rede e, quando foi a sua vez de subir, com que bola tentou passar por si. Descreva o lado da direita e o lado da esquerda do ponto de vista do adversário.
- O que resultou. Do seu lado, respostas, serviços e jogadas que deram pontos ou uma troca neutra.
- O que não resultou. Escolha de pancada, execução, jogo de pés ou timing, ou seja, a parte que dependeu de si e não do adversário. Um passing shot falhado em ponto de break não prova que o adversário não se deixa passar.
- O que fazer para a próxima. Um ou dois ajustes concretos, e a observação que levaria a abandoná-los.
Se marcar posições num esquema do court, cada marca precisa da pancada e do contexto, de um ponto de vista fixo (sempre do seu lado da rede, por exemplo) e de um rótulo. Um ponto solto no desenho não diz se a bola partiu dali, caiu ali ou se era ali que o adversário estava.
Um exemplo inventado, com a exceção incluída
O exemplo seguinte foi inteiramente inventado para explicar o método. Não descreve uma atleta real, um registo da aplicação nem dados de investigação.
Contexto: «Adversária M., destra, esquerda a duas mãos. Torneio interno do clube, à melhor de três sets, terra batida, court exterior, tarde de vento em rajadas. Perdi por 4–6 e 6–7. Escrito na mesma noite, de memória; uma colega do clube viu o segundo set.»
A adversária: «Do lado dos iguais, os primeiros serviços de que me lembro foram quase todos abertos, para a minha direita. Os segundos serviços eram liftados e lentos, com ressalto alto para a minha esquerda. Nas trocas de esquerda cruzada, mudou cedo para a paralela, duas vezes com winner e uma vez para fora. Só subiu à rede depois de atacar uma bola curta na direita dela.»
O que resultou: «Quando devolvi o segundo serviço cortado e profundo, ao meio, a troca começou neutra. Numa das subidas dela à rede, consegui passá-la.»
O que não resultou: «Quando ataquei cruzado o segundo serviço, no tie-break, falhei duas vezes. Noutra subida dela, o meu lob ficou curto. Precipitei-me na resposta ao segundo serviço aos 30 iguais e aos 40 iguais. Duas duplas faltas a servir contra o vento. Subi à rede atrás de uma esquerda cortada que ficou alta.»
Para a próxima: «Devolver os segundos serviços profundos, ao meio. Servir com mais margem quando jogar contra o vento. Refazer o plano se o segundo serviço dela tiver mudado ou se o court for outro.»
Repare no que a nota não afirma. «Quase todos» não é uma contagem; se não contou, escreva que não contou. A esquerda paralela apareceu três vezes nas trocas que ficaram na memória, e uma delas saiu para fora.
Três ocorrências, sem vídeo, não são uma probabilidade fiável para o próximo encontro, e a bola que saiu pertence à nota tanto como as duas que entraram. Quando não tem a certeza, escreva «pareceu repetir-se; não contei» e não invente precisão para tapar o buraco.
O piso, as bolas e o nível fazem parte do padrão
Um padrão observado num encontro não se transfere automaticamente para o seguinte. Yixiong Cui, da Universidade Politécnica de Madrid, e colegas, entre eles investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, publicaram na PLOS ONE, em 2018, uma análise das estatísticas oficiais de 1369 encontros de singulares femininos dos quatro torneios do Grand Slam, entre 2014 e 2017. As estatísticas de serviço e de resposta variavam de torneio para torneio:
- no Open da Austrália e no US Open, mais serviços vencedores, duplas faltas, respostas vencedoras e erros não forçados na resposta;
- em Wimbledon, melhor desempenho ao serviço;
- em Roland Garros, mais oportunidades de break.
Quase todas as variáveis estavam relacionadas com a «qualidade relativa». Essa medida vem dos rankings — é a diferença entre a ronda que se esperava de cada uma das duas jogadoras. A amostra é de profissionais em provas de elite; sobre jogadores de clube ou sobre tomar notas, o estudo não diz nada.
Mesmo assim, vale a pena registar o piso, as condições e o nível do adversário, e ler cada padrão em função deles. A esquerda paralela do exemplo pode não aparecer num court coberto de piso rápido, e o que a adversária faz contra si pode não ser o que faz contra uma jogadora mais forte.
Quem quiser uma folha de registo mais completa do que esta ficha pode consultar a revisão que Scott Over e Peter O’Donoghue, da Federação Internacional de Ténis (ITF), publicaram em 2010 na ITF Coaching & Sport Science Review. É uma revisão de orientação para treinadores, com a chancela da federação, e não investigação experimental nova.
A revisão explica como anotar a direção do serviço, separando primeiro e segundo serviço e lado dos iguais e da vantagem, e como contar as subidas à rede nos pontos mais longos; e sublinha que essas escolhas mudam com o adversário, com o marcador e com o torneio. Os autores lembram que ninguém joga contra um adversário «médio», num piso «médio», com bolas «médias». A ficha deste artigo não copia a folha da ITF.
Antes do aquecimento, uma ou duas indicações
Antes de aquecer para o reencontro, leia a página e escolha uma ou duas indicações curtas. No exemplo, poderiam ser «resposta profunda ao meio» e «margem contra o vento». Há exceções, claro, mas quantas mais indicações levar, mais complicado é o plano com que entra no court.
Nos primeiros jogos, confirme se as observações ainda se aplicam. O adversário pode ter mudado o segundo serviço; do seu lado, a forma do dia pode ser outra; e o piso, as bolas e o vento também não se repetem. Se a resposta esperada não aparecer, mude o plano em vez de insistir.
Depois do encontro, acrescente o que aconteceu, incluindo o que correu mal. Escreva enquanto ainda consegue repetir os pontos de cabeça; se houver vídeo, confirme por ele as recordações que mais pesam no plano. A investigação sobre a memória dos atletas não fixa um número de horas ou de dias ao fim do qual se esquece uma troca de bolas.
O que se repete de adversário para adversário
Ao reler páginas de adversários diferentes, procure também as suas próprias dificuldades que se repetem. As duplas faltas aparecem contra o vento, com o cansaço ou aos 30 iguais? A resposta precipitada surge em qualquer segundo serviço ou só quando está a perder? Registe as circunstâncias à parte.
As notas não dizem qual é a causa, mas permitem transformar uma sensação vaga numa pergunta concreta para o treino ou para o treinador. «Porque é que me precipito na resposta ao segundo serviço nos pontos importantes?» é uma pergunta com que um treinador consegue trabalhar.
Sobre a reflexão em si há investigação. Tynke T. Toering, da Universidade de Groningen, e colegas compararam, por questionário, 159 jovens futebolistas de elite com 285 fora da elite, todos rapazes dos 11 aos 17 anos, num estudo observacional publicado no Journal of Sports Sciences em 2009. Quem declarava refletir mais tendia a pertencer ao grupo de elite.
Não era ténis, não foi um estudo de causa e efeito e ninguém demonstrou que escrever notas tivesse produzido melhorias. O que se aproveita é a atenção aos próprios erros repetidos, com os limites discutidos no artigo sobre reflexão e desempenho desportivo.
No OpponentBook, cada adversário tem a sua página, e as notas podem ficar associadas a pins no esquema de um court de singulares de ténis. O caderno é gratuito.
As notas sincronizadas ficam no seu próprio armazenamento na nuvem, e o OpponentBook não guarda uma cópia do caderno na base de dados das contas. Quando pede uma ação de IA, o conteúdo necessário a esse pedido passa por um servidor do OpponentBook até ao fornecedor de IA; a diferença entre o que fica guardado e o que é processado a pedido está explicada no artigo sobre a privacidade das notas táticas. A encriptação ponta a ponta opcional impede o fornecedor de armazenamento de ler as notas encriptadas; as fotografias, os vídeos e os metadados dos ficheiros visíveis ao fornecedor de armazenamento ficam fora dessa proteção.
Não é preciso esperar pelo próximo torneio. Pegue no último encontro de singulares que jogou e escreva o que resultou e o que não resultou; depois assinale uma dúvida que ficou por esclarecer e escolha um ou dois ajustes para experimentar da próxima vez que jogar com essa pessoa.


