Esgrima: três perguntas para depois de cada assalto

Neste artigo
Muitos esgrimistas passam anos presos à mesma esgrima e aos mesmos erros. Continuam a sofrer toques em contra-ataque, deixam-se apanhar parados ao fundo da pista e, contra certo tipo de adversário, parecem perder sempre o mesmo assalto. Treinar mais nem sempre basta para mudar isso.
Na nossa opinião, a forma mais eficaz de melhorar a tática, e a esgrima em geral, é refletir sobre cada assalto e escrever o que aprendeu com ele. Uma maneira prática de o fazer é manter um caderno de adversários, em papel ou numa aplicação como o OpponentBook, com uma página para cada esgrimista que defronta. Depois de um assalto, acrescente umas notas à página desse adversário e, antes de o ter outra vez pela frente, leia o que lá escreveu.
Nessas notas, tudo gira à volta de três perguntas: o que resultou, o que não resultou e o que vai fazer da próxima vez. Escreva também o contexto do assalto e o que viu no adversário — só o necessário para que as respostas ainda se percebam daqui a uns meses.
É frequente defrontar o mesmo adversário mais de uma vez — na poule e depois na eliminação direta, ou no torneio seguinte. Quando o nome dele aparecer na próxima folha de poule ou no quadro, umas notas claras valem mais do que a lembrança vaga de um assalto perdido.
Primeiro, as três perguntas
Se só tiver tempo para uma parte da página, que seja esta. Recomendamos que responda sempre às mesmas três perguntas, assalto após assalto. Na esgrima, como em qualquer desporto de combate ou de raquete, parece-nos que não há nada mais importante a anotar. No OpponentBook, cada encontro que regista tem um campo para cada uma delas.
- O que resultou. As ações que lhe valeram toques ou que provocaram uma reação fraca do adversário, ainda que uma única vez. Exemplo: «Com preparações curtas, provoquei cedo o contra-ataque dela e consegui tomar-lhe o ferro e atacar.»
- O que não resultou. Como sofreu os toques. Aqui entra a sua esgrima, não só a do adversário. Exemplo: «Por duas vezes fiquei imóvel perto da minha zona de advertência, e ela tocou-me com um ataque a direito.»
- Para a próxima. Uma ou duas coisas para levar para o reencontro: o que quer mudar, ou o que resultou e vale a pena repetir. Exemplo: «Encurtar a distância antes de atacar. Ponho isto de parte se ela começar a atacar-me logo que dou um passo em frente.»
Não é obrigatório ficar por uma ou duas coisas, mas costumam chegar. Com demasiadas, o plano complica-se antes de entrar na pista.
Do outro lado da pista
Sobre o adversário, escreva o que o viu fazer. Pode ir por partes:
- Mão e empunhadura. Esquerdino ou destro; empunhadura francesa ou de pistola. Estes dados não mudam — escreva-os à parte dos hábitos, que de um torneio para o outro podem ser outros.
- Distância. Que distância preferia o adversário — curta, média ou longa? E qual é a sua preferida?
- Quem controlava o assalto. Era o adversário, e a si cabia esperar pelos erros dele ou procurar uma oportunidade nas preparações dele? Ou era o contrário, e ele é que esperava pelos seus erros?
- O ferro. Procurava o ferro, com batimentos, pressões ou ligamentos, ou evitava o contacto das lâminas? Que paradas e que respostas preferia?
- Marcador e tempo. O que mudava quando ele estava a ganhar ou a perder, perto do fim de um período ou no último minuto de um assalto equilibrado?
Em que parte da pista
Assinale os toques num esquema da pista, em papel ou na aplicação, e verá se há sítios onde se juntam — perto da sua zona de advertência, a meio da pista ou junto à do adversário, nas alturas em que ele recuou até lá. Ao lado de cada marca, escreva de quem foi o toque, que ação foi e mais ou menos quando aconteceu.
Várias marcas no mesmo sítio não dizem porquê. Tanto pode ser da distância como do cansaço, da tática ou de qualquer outra coisa.
Repare também no que o adversário fazia quando ficava encostado à zona de advertência dele, e no que fazia quando era a si que ele encostava à sua própria zona de advertência.
Enquanto a memória está fresca
Escreva as respostas no próprio dia, quando ainda se lembra bem do que levou a cada toque. Se já não souber quantas vezes uma ação se repetiu, ponha algo como «várias vezes» em vez de arriscar um número. A investigação sobre o esquecimento depois de competir é uma boa razão para não adiar demasiado, mas não diz ao fim de quanto tempo se perdem os pormenores de um assalto.
Uma página de exemplo pode ficar assim
A adversária e o assalto são inventados.
Nome: «Inês»
Contexto: «Torneio regional de espada, eliminação direta, assalto a 15 toques. Perdi por 11–15.»
A adversária: «Esquerdina, empunhadura francesa. No primeiro período não teve pressa: passos pequenos, a distância sempre longa, à espera de que fosse eu a atacar. Cada vez que a minha preparação era demasiado ampla ou o meu passo demasiado grande, contra-atacava ao meu braço. Bastava eu ficar imóvel perto da minha zona de advertência para ela atacar a direito. No terceiro período, com vantagem no marcador, recuava e deixava-me avançar.»
O que resultou: «Com as preparações curtas, o contra-ataque dela saía cedo, e aí tomava-lhe o ferro e atacava. Foi assim que marquei a maior parte dos meus toques no segundo período.»
O que não resultou: «Preparações amplas e passos grandes — tocava-me no braço antes de eu me aproximar. E ficar imóvel perto da zona de advertência, onde me tocou duas vezes.»
Para a próxima: «Nada de preparações amplas nem de passos grandes. Encurtar a distância antes de atacar; ponho isto de parte se ela começar a atacar-me logo que dou um passo em frente. Quando for ela a fazer-me recuar, não ficar parado. Na zona de advertência ainda posso recuar, e devo fazê-lo sem perder a distância; perto da linha final, atacar antes dela.»
A página é útil porque mostra o que vinha antes de cada toque. Uma preparação demasiado ampla ou um passo demasiado grande dava à adversária tempo para contra-atacar ao braço, e ficar imóvel perto da zona de advertência deixava-lhe o caminho livre para o ataque a direito. O plano responde às duas coisas, a começar pelas preparações e pela distância.
Antes e depois do reencontro
Antes de voltar a defrontar o mesmo esgrimista, leia as três respostas e o que escreveu sobre ele, e escolha uma ou duas coisas para ter presentes no início do assalto. Se houver tempo, trabalhe-as com o treinador, numa lição individual ou em assaltos com um colega de clube.
Os primeiros toques mostram se o padrão se mantém. Desde o último assalto, tanto o adversário como a esgrima que leva para a pista podem ter mudado.
Terminado o assalto, junte à página como correu o plano e aquilo de que não estava à espera. Se o adversário já não esgrime daquela maneira, atualize o perfil.
Quando o problema se repete
Ao fim de uns quantos torneios, ponha lado a lado o que escreveu em «O que não resultou» sobre adversários diferentes. Se der com o mesmo problema em várias páginas — ficar imóvel perto da zona de advertência, por exemplo —, leve-o ao treinador como pergunta para o treino, com esses exemplos à frente. É uma coisa a trabalhar, não uma fraqueza para sempre.
No OpponentBook, a esgrima tem um esquema da pista, com a linha central, as linhas de guarda e os dois últimos metros de cada lado assinalados. Os pins que lá coloca são de quatro tipos — «Resultou», «Não resultou», «Perigo» e «Tendência» — e cada um tem a sua nota. No perfil de cada adversário pode preencher a mão, a empunhadura (francesa ou de pistola), a distância preferida (curta, média ou longa) e o jogo de pernas, e juntar-lhe etiquetas de estilo como «Ataca na preparação», «Segunda intenção» ou «Especialista em flecha». Os encontros e as exportações em PDF e Word fazem parte do caderno gratuito. Para os mapas de calor dos pins é preciso pelo menos o Premium; os briefings de IA antes da competição só existem nos planos Pro e Max.
Os registos sincronizados ficam no armazenamento que ligar à aplicação; a base de dados das contas do OpponentBook não guarda uma cópia do caderno. Quando faz um pedido à IA, o conteúdo necessário passa por um servidor do OpponentBook até ao fornecedor de IA. A encriptação ponta a ponta opcional impede o fornecedor de armazenamento de ler os registos encriptados; as fotografias, os vídeos e os metadados dos ficheiros visíveis ao fornecedor de armazenamento ficam fora dessa proteção. O artigo sobre a privacidade das notas táticas explica estes limites com mais pormenor. Comece um caderno gratuito.
Pense no último esgrimista que lhe ganhou e, ainda hoje, escreva o que resultou, o que não resultou e o que vai fazer quando o voltar a defrontar. Depois, acrescente como ele começava as ações.


